Aposentei. E agora?

Alguns aposentados se veem sem um plano ao procurar um novo caminho e um novo propósito

Quando Jeff Hutchinson, 65 anos, se aposentou há dois anos, ele tirou um ano sabático para descobrir o que queria fazer. “Estava emocionalmente pronto para sair”, disse Hutchinson, que se adaptou bem à vida após aposentar-se.

Seus dias estão cheios, reunindo-se com ex-colegas para almoçar e enfrentando a pilha de “projetos armazenados” em sua garagem ao longo dos anos. E ele gosta de estar no celeiro com a meia dúzia de cavalos que ele e sua esposa, Mary Beth Donnelly, têm na fazenda de 56 acres.

Hutchinson sabe que tem sorte por ter muito o que fazer. “Digo aos meus amigos, não deixe a aposentadoria te assustar. As pessoas estão muito preocupadas por não ter o que fazer. É preciso planejar um pouco”.

Mas muitos aposentados não têm um plano. E para aqueles que se aposentam mais cedo do que o esperado, por causa de um problema de saúde ou por terem sido demitidos, enfrentar a nova realidade pode ser muito difícil. Isolamento e solidão acontecem.

“Com muita frequência, a aposentadoria é vista como uma mudança do trabalho para o não trabalho”, diz Marc Freedman, que lidera o Encore.org, uma organização sem fins lucrativos que contribui para que as pessoas 50+ possam explorar suas habilidades e experiência em novos trabalhos.

E atravessar essa fase, pode ser, emocionalmente, uma jornada solitária. “Com demasiada frequência, num período pós-aposentadoria, os indivíduos são deixados por conta própria para encontrar um novo propósito”, disse Freedman, autor de How to Live Forever: The Enduring Power of Connecting the Generations (Como viver para sempre: o poder duradouro de conectar as gerações, em tradução livre). “Muitos se sentem solitários nesta nova fase, nas questões práticas e emocionais”.

Conecte-se

Parte do medo decorre pela perda de identidade quando se perde o trabalho, de acordo com Dorian Mintzer, uma consultora para transição de carreira. “Muitas vezes, as pessoas não reconhecem o papel que o trabalho desempenhou em suas vidas – a estrutura fornecida, o motivo para se levantar de manhã, autoestima, comunidade, camaradagem. Essa é a fragilidade emocional das pessoas inconscientes”, disse ela.

“Algumas pessoas não estão preparadas para o luto, e é por isso que se sentem tristes e deprimidas quando, a perspectiva de descanso, deveria ser o melhor momento da vida”, disse Mintzer.

Demorou alguns anos para Phyllis Rhoton, 73, perceber que algo estava faltando e contratar Mintzer para um coaching pessoal. Há dez anos, por causa de um problema de saúde, ela se aposentou sem qualquer perspectiva.

“Nos dois primeiros anos, me cuidei. Fiz coisas que não podia fazer enquanto trabalhava. Viajei e visitei amigos e familiares. Minha mãe estava doente e pude cuidar dela. Então, todos começaram a morrer – minha tia, meu irmão, minha mãe. Minha família estava diminuindo”, disse Rhoton, que é solteira e não tem filhos. “Isso faz parte do envelhecimento, mas senti que havia um vácuo. Eu ficava assistindo o Netflix o tempo todo, e isso não é real.”

Contratar Mintzer a ajudou a perceber que sentia falta de estar em contato com outras pessoas. Então, Rhoton foi estudar culinária vietnamita, falar em público e como ensinar inglês como segunda língua. “Conheci novas pessoas e minha mente ficou ocupada novamente”, disse ela. Iniciou um voluntariado servindo refeições no abrigo de veteranos. “Ao trabalhar como voluntária senti que fazia parte de algo”. Agora, ensina inglês. “Sou estudante e professora ao mesmo tempo. Aprendo muito sobre sua cultura, costumes e experiências dos alunas e alunos” , diz ela.

Ajuste-se

Aposentar-se é uma sequência de fatos ao longo do tempo. Três mudanças substanciais ocorrem, diz Ken Dychtwald, fundador e diretor executivo da Age Wave, uma empresa de consultoria e pesquisa.

“Para as mudanças importantes de nossas vidas, há rituais. Do ensino médio para a faculdade, há o aconselhamento. Quando se trata de aposentadoria, as pessoas dizem basicamente boa sorte, divirta-se”, diz Dychtwald.

A primeira grande mudança é da identidade. “Se percebemos ou não, gostemos ou não, nossa identidade está ligada ao trabalho e à maneira como nos descrevemos, como nos apresentamos. Nossa identidade foi forjada, aprimorada e moldada pela nossa carreira”.

Além disso, os relacionamentos mudam. “Quando perguntamos aos aposentados num estudo, realizado pela Merrill Lynch em parceria com a Age Wave, o que você mais sente falta, no topo da lista estavam os relacionamentos”, disse Dychtwald. “Eles não previram o quanto sentiriam falta da pessoa na mesa próxima à deles perguntando sobre seus filhos e conversando sobre suas vidas”.

Segundo Dychtwal “a maioria, até o dia da aposentadoria, viveu uma vida estruturada. Ao se aposentar tudo isso é dissolvido. Para algumas pessoas, isso é uma forma de terror. Eles se sentem em queda livre. Outros veem como uma espécie de liberdade”.

Dychtwald diz que muitas vezes a preocupação é somente com as finanças, mas “acho que, realmente, é uma metamorfose psicológica. Durante esse período de transição, algumas pessoas ainda se sentem inquietas, ansiosas ou entediadas, mas acabam percebendo que podem ser algo novo”.

Envolva-se

Há três anos, Lester Strong, então com 67, aposentou-se de um trabalho que se concentrava em idosos ensinando e orientando crianças do ensino fundamental. “Estava me sentindo obsoleto”, disse Strong. “Eu não estava crescendo e me desenvolvendo, então decidi que era hora de me aposentar. Eu não sabia se, no início, ficaria sentado em casa de chinelos, mas precisava procurar algo”.

O que Strong não esperava, foi o período que se seguiu enquanto tentava entender o que queria fazer. Ele e sua esposa, Patrice, foram a um fórum da comunidade policial em Kingston, Nova York, onde agora vivem. Houve um incidente na cidade envolvendo o uso excessivo da força pela polícia contra um homem negro e a comunidade reagiu. A polícia tentava explicar o que aconteceu num conversava com a comunidade, lembrou o Sr. Strong. “Eu pensei que talvez pudesse fazer algo com minha experiência e como afro-americano”.

Ele decidiu se envolver. “Eu queria contribuir de uma maneira mais prática. Senti no coração que seria como professor. Me formei em educação na faculdade, mas nunca havia atuado como tal”.

Em janeiro, ele iniciou o programa The Peaceful Guardians Project (Os guardiães pacíficos, em tradução livre). A iniciativa conecta os alunos do ensino médio do distrito escolar de Kingston City ao departamento de polícia de Kingston. Policiais e jovens formam equipes e trabalham em atividades que promovam compreensão, empatia e confiança. O objetivo é aprender a ver uma situação através dos olhos do outro. “Ainda não sei exatamente para onde estou indo, mas comecei”, disse Strong. “Tenho algo a dizer, algo a oferecer e isso me entusiasma”.

Por enquanto, o Sr. Strong decidiu que seu trabalho é prestar atenção e continuar perguntando: “Como posso ajudar? Como posso ajudar a melhorar as coisas? Levanto-me todas as manhãs para fazer algo novo e fazer a diferença”, diz ele.

 

O artigo de Kerry Hannon foi publicado originalmente no The New York Times em https://www.nytimes.com/2019/09/12/business/retirement/planning-financial-social.html

 

Walter Alves

Palestrante e consultor social com experiência em gestão de pessoas, Gestão do Conhecimento e inclusão no trabalho de mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTI+ e pessoas acima de 50 anos.
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