“Quero ser enterrado com o uniforme da empresa”

O pedido que dá título a este artigo pode causar estranheza ou até perplexidade. Mas foi exatamente o que solicitou um funcionário, aposentado, de uma grande corporação numa das capitais brasileiras. E seu desejo foi cumprido à risca pelos seus colegas, que ainda complementaram a homenagem fúnebre cantando o hino da empresa no momento final do enterro.

Em outra empresa o pedido de um funcionário – também aposentado e que foi respeitosamente atendido – é o de que ao baixar o caixão fossem jogados produtos da empresa, antecedendo as pás de terra que cobririam o mesmo.

Histórias de funcionários aposentados, que mantém sua conta-corrente na agência bancária interna da empresa, de forma a continuar tendo um motivo para ir à mesma, são bastante comuns. Bem como solicitar um “crachá” especial que assegure seu acesso à corporação, sem a necessidade de ter que se identificar a cada nova visita.

Mas isto ocorre também com os altos executivos, que sempre tiveram acesso à empresa em carro e motorista pagos pela mesma, sem nenhuma verificação ou parada prévia, na portaria. Entretanto, agora na mera condição de “ex”,  se sentem deveras  constrangidos, porque além de ter que dirigir seu próprio automóvel, ainda necessitam se identificar para que tenham seu ingresso autorizado.

E tem ainda a história de um ex-presidente de uma corporação multinacional que, mesmo depois de aposentado, continuava usando seu cartão de visita onde, cuidadosamente, anotava seus novos pontos de contato.

Este pequeno conjunto de histórias demonstra, de uma forma muito prática e realista, como boa parte das pessoas que se vinculam a uma organização, e a ela entregam não apenas sua competência profissional, mas também suas vidas, continuam apresentando uma grande dificuldade em se preparar para a fase da aposentadoria ou para uma nova carreira.

E as causas deste despreparo estão situadas em três diferentes sistemas da estrutura do mundo do trabalho.

Em primeiro lugar a família, que continua orientando filhos para que busquem uma grande corporação – quando não o emprego público –, onde possam encontrar uma perspectiva de carreira e a segurança da “carteira profissional assinada.”

A segunda instituição é a escola formal, que tem todo seu processo curricular direcionado para a formação do estudante no sentido de que se preocupe – quase que exclusivamente – em buscar um emprego. Com algumas honrosas exceções, que ocorrem muito mais nas instituições de formação de nível médio ou técnico, encontramos abordagens que buscam estimular, e até valorizam, a iniciativa empreendedora.

E por último as próprias corporações que continuam mantendo programas, treinamentos, políticas de estímulo e ações no sentido de captar, integrar, manter e desenvolver seus recursos humanos. Obtendo com isto, em muitos casos, um forte sistema de adesão do funcionário à empresa.

É quando surge a tradicional frase “vestir a camisa”. Mas que na minha avaliação, o que de fato ocorre é que as pessoas ficam “tatuadas” pela empresa. Ou seja, uma camisa pode, com o tempo, desbotar ou perder seu colorido. Uma “tatuagem” impregna o todo da pessoa. Podendo até se tornar uma “marca” permanente.

Raras são as empresas que mantém programas que preparam o indivíduo para seu re-ingresso no mundo do trabalho e perda da sua identidade – sobrenome corporativo – que lhe foi “emprestado” por um longo tempo.

A preocupação da maioria dos profissionais que procura planejar sua aposentadoria, e também das próprias empresas que desenvolvem programas com esta finalidade, está muito centrada em questões de reserva financeira e cuidados com a saúde.Temas evidentemente bastante relevantes.

Mas apenas esta abordagem não supre todos os desafios que serão enfrentados, pelo profissional, nesta nova fase da vida.

E o desafio é hoje muito maior com o aumento dos índices de longevidade, também no Brasil. É fundamental que os profissionais que se desligam das empresas estejam preparados na sua capacidade de se reinventarem mais vezes, ao longo de toda sua vida.

Isto requer estabelecer um amplo Projeto de Vida para esta nova etapa, que contemple os vários papéis que vivemos – profissional/familiar/social/educacional/espiritual/individual – com os seus respectivos desafios e mudanças. Ou seja, a vida deve continuar tendo sentido para ser vivida plenamente.

Mas, acima de tudo os programas necessitam aparelhar a pessoa para que ela própria assuma o seu processo. Sem receitas milagrosas.

Renato Bernhoeft

Renato Bernhoeft

Parceiro em Programas de Pós Carreira em Angatu IDH
Presidente da Höft Consultoria e parceiro da Angatu IDH em Programas de Pós Carreira, Renato é autor de várias publicações na temática, dentre elas: "Trabalhar e Desfrutar: Equilibrio entre vida pessoal e profissional".
E-mail: rbernhoeft@angatuidh.com.br
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