A velhice é um conceito inventado que prejudica a todos – parte I

Os produtos para idosos reforçam uma falsa imagem de passivos e frágeis

De todas as mudanças que a humanidade sabe que enfrentará nas próximas décadas – as climáticas, a ascensão da Inteligência Artificial (IA), a revolução na edição genética – nenhuma é tão previsível em seus efeitos quanto o envelhecimento.

A expectativa de vida nas economias industrializadas aumentou em mais de 30 anos desde 1900 e, pela primeira vez na história da humanidade, há mais pessoas acima de 65 anos do que com menos de 5 anos – tudo graças a uma combinação da crescente longevidade e da queda da fertilidade. Observamos essas tendências há anos; os demógrafos puderam traçá-las décadas atrás. E, no entanto, não estamos preparados para as consequências.

Não estamos preparados econômica, social, institucional e tecnologicamente. Uma grande quantidade de empregadores nos EUA – tanto na indústria quanto nos governos – está passando pela fuga de cérebros provocada pela aposentadoria de trabalhadores experientes e idosos. Ao mesmo tempo, desempregados mais velhos lutam para encontrar boas vagas, apesar das taxas de desemprego atualmente serem as menores dos últimos 50 anos. Enquanto isso, metade dos empregados mais velhos é demitida antes de preparar-se para a aposentadoria e 25% dizem que planejam nunca parar de trabalhar. Os sistemas de transporte público, fora das grandes cidades, não está preparada para uma população maior de usuários, mais envelhecida e que não dirige. Os EUA também enfrentam escassez de profissionais que dão assistência a idosos, a situação só piora à medida que a demanda aumenta. Enquanto isso, a assistência “informal” a idosos retira anualmente da economia US$ 522 bilhões – principalmente de mulheres que reduzem sua jornada de trabalho, ou deixam completamente o emprego, para cuidar dos idosos.

Os problemas relatados podem ser resolvidos. É estranho, por exemplo, que os empregadores estejam enfrentando uma crise de aposentadoria ao mesmo tempo em que muitos trabalhadores mais velhos precisam lutar para provar seu valor – é como um incêndio florestal coexistindo com uma chuva torrencial. É estranho que uma sociedade como a nossa ainda coloque obstáculos no caminho de candidatos mais velhos ao emprego.

O MIT AgeLab abordou um desses paradoxos em particular: a profunda incompatibilidade entre produtos criados para pessoas mais velhas e os que elas realmente precisam e desejam. Alguns exemplos, apenas 20% das pessoas que poderiam se beneficiar de aparelhos auditivos os procuram. Apenas 2% das pessoas com mais de 65 anos buscam tecnologias de resposta pessoal a emergências – os dispositivos portáteis que ligam para o 190 pressionando apenas um botão – e muitos (talvez até a maioria) dos que os possuem se recusam a apertar o botão de chamada mesmo depois de sofrer uma queda séria. A história nos dá outros exemplos de tais produtos que não funcionam, desde carros amigáveis ​​até alimentos misturados e telefones celulares de tamanho grande.

Em todos os exemplos, os designers de produtos pensaram entender as demandas dos idosos, mas subestimaram como os consumidores mais velhos fugiam de qualquer produto exalando um cheiro de “velhice”. Afinal, não há dúvida que os dependentes de resposta pessoal de emergência são para “idosos” e, como a Pew Research relatou, apenas 35% das pessoas com 75 anos ou mais se consideram “velhas”.

Há uma lacuna de expectativas entre o que os consumidores mais velhos querem de um produto e o que a maioria oferece. Se você precisar de um aparelho auditivo, mas ninguém produz um que você ache que vale a pena comprar, isso poderá trazer sérias consequências para sua qualidade de vida, levando-o ao isolamento social e a riscos físicos futuros.

Mas até aqui o mais importante questionamento não foi respondido. Por que os produtos criados para pessoas mais velhas parecem tão pouco inspiradores, são grandes, bege e chatos? Não é que os idosos não tenham dinheiro. A população com mais de 50 anos controla 83% da riqueza das famílias nos EUA e gastou mais em 2015 do que aquelas com menos de 50 anos: quase US$ 8 trilhões. É verdade que essa riqueza é distribuída de maneira desigual, mas se existissem produtos melhores eles seriam mais comprados pelas pessoas com mais dinheiro.

E não é mais possível argumentar que o problema é que as pessoas mais velhas não são conhecedoras de tecnologia. Talvez esse estereótipo tenha sido verdadeiro – em 2000 -, quando apenas 14% das pessoas acima 65 anos nos Estados Unidos usavam a Internet -, mas isso é passado. Hoje, 73% da população – na mesma faixa etária – está online e metade possui smartphones.

Então, qual o motivo desta lacuna?

Existe uma explicação – e contém pistas de como podemos transformar muitos problemas paradoxais do envelhecimento global em novas oportunidades.

 

A farsa dos “anos dourados”

A causa dos problemas trazidos à luz do dia – entre produtos e expectativas dos consumidores, entre empregador e trabalhador mais velho, entre o que as pessoas de 75 anos pensam sobre velhice e sua autoimagem – é muito simples. “Velhice”, como a conhecemos, é um conceito inventado.

Há 200 anos, ninguém pensava nos “idosos” ou “velhos” como um problema populacional a ser resolvido, mas isso mudou graças a uma confluência de avanços científicos e uma construção cultural. Na primeira metade do século XIX, os médicos, nos EUA e no Reino Unido, acreditavam que a velhice biológica ocorria quando o corpo ficava sem uma substância conhecida como “energia vital”, que, como a energia de uma bateria descartável era consumida durante a vida inteira pela atividade física, e nunca poderia ser reabastecida. Quando as pessoas começavam a apresentar sinais de envelhecimento (cabelos brancos, menopausa, etc.), a única saída clinicamente correta era insistir para que reduzissem suas atividades. “Se a morte resulta de um suprimento esgotado de energia, o objetivo era retê-la a todo custo”, escreveu a historiadora Carole Haber em seu livro de 1994, Old Age and the Search for Security (Velhice e a Busca por Segurança, em tradução livre), “se alimentando corretamente, vestindo roupas adequadas, e realizando (ou abstendo-se) de certas atividades”. Sexo e trabalho físico eram considerados especialmente desgastantes.

Na década de 1860, novos conceitos de patologia começaram a substituir o da energia vital na Europa continental e acabaram chegando aos EUA e Reino Unido. Enquanto isso, entretanto, discussões sobre desenvolvimento social e econômico preservariam como em âmbar a concepção de velhice como um período de descanso passivo.

No local de trabalho cada vez mais mecanizado, a eficiência era a nova palavra de ordem. O trabalhador mais velho, com pouca energia vital, foi um alvo fácil. Pensões privadas – introduzidas pela American Express em 1875 e que explodiram nas décadas seguintes – foram a resposta pela preocupação humanitária com funcionários aposentados, mas, também, por darem aos gerentes a cobertura moral necessária para demitir trabalhadores mais velhos.

No início da 1ª Guerra Mundial, a primeira metade da narrativa moderna sobre a velhice foi escrita: os idosos constituíam uma população em extrema necessidade de assistência. Foi somente depois da 2ª Guerra Mundial que a segunda metade foi desenvolvida na forma dos “anos dourados” por Del Webb, um gênio do marketing,  construtor da Sun City, a meca da aposentadoria no Arizona.

Os anos dourados posicionaram a aposentadoria não como algo ruim que seu chefe fez com você, mas como um período de recompensa por uma vida inteira de trabalho duro. Quando a aposentadoria se tornou sinônimo de lazer, toda a concepção de velhice do século XX se formou: se você não era o tipo de pessoa mais idosa que era carente – por dinheiro, por ajuda nas tarefas diárias, por atenção médica – então você deve ser o tipo que era ganancioso: por uma vida fácil e de luxos consumistas.

Com os desejos e as necessidades atendidas, essa imagem de Janus (deus romano das mudanças e transições) deu a impressão de grandeza, mas, na verdade, criou uma imagem ruim das pessoas mais velhas. Ser velho significava ser sempre um tomador, nunca um doador; sempre um consumidor, nunca um produtor.

 

O artigo de Joseph F. Coughlin foi originalmente publicado na MIT Technology Review em https://www.technologyreview.com/s/614155/old-age-is-made-upand-this-concept-is-hurting-everyone/

A segunda e última parte será publicada daqui a 7 dias.

Walter Alves

Palestrante e consultor social com experiência em gestão de pessoas, Gestão do Conhecimento e inclusão no trabalho de mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTI+ e pessoas acima de 50 anos.
Walter Alves

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